TERESA DIAS COELHO

Objectos Comuns

Filipe Rocha da Silva

 

 

Teresa Dias Coelho apresenta agora quinze pinturas de objectos, de uma ventoinha a um candeeiro de secretária, de um secador a um rádio, de um ferro eléctrico a um relógio.

 

São pinturas de objectos dos anos cinquenta-sessenta, cujos originais estão na fronteira do obsoleto, estando na lista daqueles objectos que nós próprios hesitamos entre mandar para o lixo ou manter ao serviço, embora lhes reconheçamos uma qualidade e uma estética intrínseca provavelmente superior aos objectos de utilidade idêntica mas de mais recente data.

 

O pó do tempo que se depositou sobre os objectos úteis de Dias Coelho confere às suas pinturas um cromatismo especial, que oscila entre as cores vivas mas um pouco esbatidas (remaniscentes das fotografias a cores do mesmo período do séc. XX ou das primeiras polaroids) e um "falso" cinzento, no sentido em que é composto pela mistura das cores primárias.

 

Os objectos no entanto não têm um ar degradado ou disfuncional, pelo contrário mantêm intacta toda a sua qualidade estética e operacional, embora sejam como já dissemos envolvidos por uma ligeira neblina. Trata-se portanto de seres vivos, resistentes ao tempo, à circulação e mortalidade das formas geradas pela sociedade consumo.

 

Madeira, pano, baquelite, aço, vidro, folha, cerâmica, plástico, parecem complementar-se em pares significativos que prossupõem ou não a presença da electricidade, permitindo ao homem ou à mulher o acto mágico de ligar ou desligar.

 

O espaço circular em volta, maternal e protector, confina e cria um invólucro que ajuda a conferir a estes seres o carácter quase místico e imortal de algo que vem do passado, mas se recusa a aceitar o veredicto do tempo, ou de um brinquedo que a criança deseja mas que lhe é fornecido dentro de uma bola de plástico que não sabe e talvez não seja bom de abrir.

 

Esta espécie de arqueologia industrial relacciona-se também, através da sua técnica cuidada, com a fotografia, que tem essa virtualidade de fixar o passado, para a qual a prespectiva dos desenhos de Dias Coelho remetem, por meio de uma visão uni-direccional.

 

Tudo isto faz sentido nesta autora. Ela viveu os anos sessenta de uma forma muito marcante e diversa da maioria da população portuguesa. Este passado histórico é no entanto processado por ela de uma forma discreta e relativa a uma maneira de actuar que, sem deixar de encarar os factos relevantes da vida, os redescobre com o "manto diáfano da fantasia" e uma sensibilidade muito prática e feminina, aparentemente ligada às "coisas do dia a dia", que na realidade são utilizadas como veículo ou estratégia de dissimulação.

 

Estes objectivos que poderíamos considerar apenas friamente bonitos, dignos de figurar hoje nos escarparates da nossa loja favorita de curiosidades, têm afinal a vida interna de uma síntese, uma relevância histórica que está no âmago de acontecimentos épicos ou íntimos que entre nós se passaram ou que, devendo passar-se não se passaram, no séc. XX.

 

Luta pela sobrevivência, morte, recusa de uma sociedade de consumo, infância perdida, podem hoje em dia parecer lugares comuns acerca dos quais já tudo tinha sido dito, a menos que tal aconteça através do pincel subtilissimo de Dias Coelho, no qual se conjuga da forma mais harmoniosa uma memória individual e a colectiva.

 

 

Filipe Rocha da Silva

2002

© 2017 Teresa Dias Coelho