TERESA DIAS COELHO

O Jardim dos caminhos que se dividem - O Poder do centro

António Guerreiro

 

 

No final da Idade Média, príncipes e homens de saber entregaram-se à tarefa de reunir os objectos mais heterogéneos e insólitos numa Wunderkammer, num gabinete de maravilhas. Tais colecções criavam um efeito quase tão paradoxal como a enciclopédia chinesa descrita por Jorge Luis Borges.

 

Ao reunir nesta exposição uma enorme quantidade de desenhos de objectos da mais diversa proveniência e paisagens, procurando saturar o olhar do espectador com os efeitos de justaposição e acumulação, Teresa Dias Coelho criou algo próximo de uma Wunderkammer. Mas enquanto os objectos da Wunderkammer, no seu aspecto paradoxal e arbitrário, ganhavam sentido e razão de ser enquanto elementos exemplares e cristalizados do mundo vivo e infinito da criação, estes desenhos são traços mnemónicos, memória de um percurso pessoal - o da própria artista - que se revisita em chave labiríntica, como quem faz anotações autobiográficas, através de um instrumento, o desenho, que ganha uma dimensão escritural. O título borgesiano, introduzindo um segundo nível, eminentemente auto-reflexivo, aí está para nos lembrar isso: "O jardim dos caminhos que se dividem."

 

A memória homogeneíza: estes desenhos, todos do mesmo tamanho - bastante reduzido - criam equivalência e igualdade entre tudo aquilo que evocam enquanto dispositivos de memória. Vestígios de um tempo dinâmico, eles são uma cesura nesse movimento, imobilizações momentâneas, cristalizações de uma história que se apresenta desmontada, articulada através de fragmentos e visível apenas nos seus resíduos. Como o bom Deus de Warburg, o de Teresa Dias Coelho também está nos detalhes. Os objectos representados nestes desenhos suspendem qualquer significação simbólica, são restos petrificados, naturezas mortas, produtos de uma arqueologia material a que a artista se consagrou.

 

Assim, no labirinto do passado e nas pregas dos seus meandros, os objectos aqui representados são como que ideogramas. E como a memória é narrativa, eles náo se podem subtrair ao princípio de uma história, à lógica de um encadeamento, de uma efabulação que se constrói como um trama labiríntica. Mas trata-se de um história potencial, sempre aberta, porque resulta de um jogo combinatório. Podemos, aliás, perceber que há aqui histórias potenciais de diferentes tonalidades: nostálgicas, melancólicas, sinistras, jubilantes, etc. O arquivo de onde vêm estes objectos está longe de ser um lugar neutro, muito embora cada objecto, por si, pareça expor-se numa espécie de neutralidade afectiva. O efeito de conjunto - as combinações e justaposições - é aqui um dado muito importante.

 

Estes desenhos trazem consigo uma crença cega na representação. Uma árvore, um copo, uma parede, uma sombra surgem aqui em pé de igualdade e ao lado de um mar, de um ceú, de uma nuvem. Ou seja, os objectos triviais que não oferecem qualquer resistência ao nosso poder de imaginação não têm um estatuto diferente daqueles que a tradição do pensamento estético deu como exemplos do sublime: o mar e o ceú, na sua imensidão e ausência de limites.

 

Tudo aqui participa na mesma ordem do representável. Nem os objectos triviais ganham uma dimensão metafísica, nem as paisagens incomensuráveis nos fazem entrar no abismo da representação. O desenho é, aqui, um instrumento de sobriedade e de domínio. E é precisamente porque nada excede a medida que uma subtil estranheza se vem instalar. Tal como Warburg dizia que o seu Atlas das imagens era uma história de fantasmas para adultos, o Atlas pessoal de Teresa Dias Coelho também não se consegue eximir a um inconsciente do tempo que se chega até nós nos seus traços e no seu trabalho: vestígios da história pessoal, motivos e ritmos do tempo da memória, quedas e interrupções de um real privado.

 

Os objectos que estes desenhos representam são completamente destituídos de toda a ideia? Apresentam-se como evidências absolutamente independentes do pensamento e como que mortificadas? Sim, e esta materialidade que se oferece à representação e à imaginação (muito mais do que à interpretação) cria opacidade e invisibilidade. Em certa medida, estes desenhos trabalham os objectos e as paisagens (enquanto revisitações, sob a forma de miniatura e de resíduo, de um percurso artístico) como o grande plano trabalha na desmontagem visual das coisas.

 

 

António Guerreiro

© 2017 Teresa Dias Coelho