TERESA DIAS COELHO

NO LABIRINTO DAS IMAGENS

Manuel Gusmão

 

 

A máquina disparou sobre o mundo, iluminado

 

pela luz do inverno; os projécteis atingiram-no

 

por séries de imagens fragmentárias -

 

fotografias.

 

 

 

Trabalho da cegueira que escolhe

 

segundo a lenta preferência;

 

com toda a lentidão

 

do mundo; a mão dispara o retardador

 

sobre as fotografias, apaga o seu enquandramento

 

elege e reenquadra um pormenor -

 

o fragmento de um fragmento.

 

 

 

planos de mar; parcelas de objectos de uso doméstico, um écran completo e completamente cego; planos de uma escada interior com corrimão e botão de luz; molduras de céus com nuvens de algodão, explodindo; árvores, ramos de; uma inúmera população de pedras e seixos minuciosamente poisados sobre um terreno calvo; uma mulher de chapéu que olha, com a boca entreaberta, Ingrid Bergman; dois homens que de costas para nós se afastam por obra da máquina de pernas a andarem; três silos decrescendo segundo a prespectiva;

 

 

 

Fechados os olhos, a mão dispara sobre

 

as fotografias e acerta no alvo;

 

fixa o desenho no centro da praia, da folha

 

de luz contra a parede, para que a vertigem não

 

acometa o olhar e os fragmentos

 

que ele balbucia.

 

 

 

o terreno calvo, agita-se em ondas ou em dunas, ostenta subitamente um seixo em grande plano e é como se fosse uma praia deserta e agreste; um retrato aparece, Jorge Luis Borges, depois aparecerão outros: todos só a testa e os olhos, retratos contados pela cana do nariz, Franz Kafka, Virgínia Woolf, Al Berto; serão nuvens a folhagem esparsa ou bandos de pássaros; um caminho no mundo de campos e campos; árvores, mas como cones maciços, ciprestes; uma secção de um relógio sem ponteiros; uma casa dividida pelo sol e pela noite de um candeeiro de rua - uma citação da pintura; uma cara de uma boneca quieta e inquietante e depois outras bonecas, outros brinquedos e o braço da menina que os dispõe; as rémiges da asa ou as pernas de um pássaro que escreveria; as mãos de uma mulher que amarfanham um casaco; nuvens em castelo; o plano de um homem e uma mulher nos bancos da frente de um automóvel, com a legenda aberta a branco na porta escura e dizendo o que a mulher diz: "Posso ficar aqui";

 

 

 

Para que o mundo não se escape por ali - este ou

 

aquele desenho - ou para estancar a hemorragia

 

do real projectado; rodeia o desenho com outros desenhos,

 

distribuídos, quando o quadro dos quadros o permite,

 

pelos quatros pontos cardeais.

 

O desenho deixa de estar ao centro,

 

viaja para um dos lados: Tudo se multiplica

 

e desequilibra.

 

 

 

a luz parece vir do mar, ou nele, das ondas, em seus vários planos, cantando; o canto de uma sala ou de um quarto como se não tivesse móveis; um pormenor de arquitectura; um fragmento de um tubo metálico; um bocado de calçada com um F gravado numa pedra maior, quadrada; um mulher sentada num barco, equilibrando um remo duplo, num rio ou num lago; um homem de bicicleta que sai pela esquerda, olhando para nós, e desenhada a ilusão da velocidade; a dispersão parece crescer, mas uma rima pode sempre acontecer entre os elementos de uma série - supõe afastadas entre si pelo espaço-tempo de outros desenhos, as pernas de uma criança com meias altas e os pés calçados com sapatos rasos de presilha; um plano de campos e campos; uma esfera, um astro pairando sobre uma mesa, uma bola de bilhar; um farol com a sua pequena e redonda explosão de luz no cimo; planos de mar, só um deles habitado por um barco; um fragmento de um rádio já antigo; 12h ou 0h e 16m, a branco na secção de um mostrador negro de relógio;

 

 

 

Como se fosse o olho de uma mosca que

 

olhasse o mundo e a santa multidão das suas faces.

 

A dispersão parece ser cada vez maior

 

mas as séries ou as hipóteses de séries

 

continuam; e dentro de cada uma

 

os desenhos rimam; assim como podem entre si

 

diversamente rimar

 

desenhos de séries diferentes.

 

 

 

Fracções de aparelhos e utensílios de cozinha; duas cadeiras de braços; as nuvens continuam a deflagrar nos céus e as árvores a variarem de forma, porte e disposição da ramaria; do lava-louças ou de uma banheira o ralo por onde toda a água se escoou já; o fragmento mínimo de um ancoradouro; uma onda de terra subindo; árvores, ramos nus escrevendo o ar branco e quieto; as nuvens sobre a terra sempre, até àquela sobre a qual a lua se debruça fulgindo; os sinais de um crime já cometido algures: um fragmento de telefone fora do descanso e caído no chão, a lâmina de uma faca de cozinha, um par de sapatos pelo chão e um copo vazio; fragmentos de um cais deserto; um candeeiro de rua junto de uma parede alta; um foco de luz que quase apaga os contornos do rosto de uma menina;

 

 

 

O poliedro do olhar dispõe um caleidoscópio

 

que, imobilizado embora, reunisse os fragmentos

 

de mundos diferentíssimos - de mundos

 

a distâncias e velocidades incomparáveis.

 

De tão diferentes velocidades vem a diferença

 

das formas. Até teres de te perguntar se formam

 

um mundo esses mundos

 

ou como se desenham as fronteiras?

 

 

 

Não se desenham. É a montagem e a diferença

 

entre os desenhos quem sugere essa ideia

 

de fronteiras que aparecem intensas e in-

 

transponíveis; como se a cada desenho

 

fechasses os olhos e os reabrisses para o próximo

 

e ao mesmo tempo esse movimento a espaços

 

te impusesse ver não o desenho mas o múltiplo.

 

 

 

aparelhos e utensílios de escrita: uma caixa de madeira para lápis e canetas, a secção do lado esquerdo de um teclado de máquina de escrever, as hastes deitadas dessas teclas, um tinteiro; um fotograma de L'année dernière à Marienbad: vultos imobilizados na luz de um jardim geométrico; uma secção de uma página - onde podes ler por duas vezes a palavra "labirinto" - de outro jardim: O jardim dos caminhos que se dividem; o desenho de uma pintura que vem de um plano de um outro filme - Querelle, de Fassbinder - um marinheiro levemente inclinado e apoiando o seu ombro direito num poste de electricidade; o focinho e a hélice da asa esquerda de um avião que vai partir de Casablanca; um homem de costas que acaba de chegar da Europa; o pescoço, a orelha e os longos e pesados anéis do cabelo de uma mulher, uma estátua jacente; um par de luvas abandonadas; um sofá coberto por um pano grosso que o protege do pó; corredores e portas que abrem e fecham a luz e as sombras; estilhaços, inúmeros, da infância: um carrinho de criança na orla do mar;

 

 

 

Não é nem o olho da mosca nem a vertigem imóvel

 

de um caleidoscópio. É e não é um labririnto:

 

nem sequer descortinas a porta de entrada,

 

quanto mais a da saída; passas a intervalos

 

irregulares por um desenho que é a variação

 

de um mesmo motivo musical.

 

 

 

O tempo de ires

 

desenhando, os disparos e a montagem

 

dão-te este espaço; este espaço variando

 

segundo os acidentes do lugar onde

 

o reconstróis - o tempo de trabalho a

 

especializar-se. Mas se chamares "o inventor

 

de jogos" ele inventará que o espaço se

 

temporaliza: alguns desenhos feitos no presente

 

lembram outras épocas outras mostras

 

da tua manufactura; as séries tornam-se motivos

 

que o tempo traz e leva, na música obsessiva

 

das tuas idades: o carrinho da infância de ninguém

 

aceita tornar-se crisal fendido de duas infâncias;

 

o marinheiro de Querelle data

 

a exposição sobre os bares da noite; os mares

 

e os céus dispõe a mesa da luz;

 

os sinais do crime recordam os despojos das Dores.

 

E por aí fora, pelo tempo dentro,

 

 

 

o que faltam aos desenhos para serem um filme?

 

 

Manuel Gusmão

© 2017 Teresa Dias Coelho