TERESA DIAS COELHO

Dores

Ruth Rosengarhen

 

 

A obra de Teresa Dias Coelho chamou-me a atenção por várias razões, a mais significativa das quais se prende com a importância que atribui à fragmentação de uma narrativa incompleta (inexistente?), noção que, tenho que confessar, vai ao encontro das minhas próprias preocupações.

 

A presente exposição de pinturas - óleos sobre tela - partiu da inicial função ilustrativa (as obras estão incluídas no livro de Maria Velho da Costa, Dores). Para além de duas grandes paredes (e menos interessante) telas colocadas no vão de escada, e que têm uma relação supostamente ilusionística com a arquitectura, alinham-se três fileiras de quadros de formato quadrado, configurando uma vasta grelha de cobre, num gesto dramático, uma única parede da Casa Pessoa. A iluminação acentua o efeito de teatrilidade quase barroca.

 

Representados em pinceladas suaves, quase lambidas, com grande mestria técnica, as partes do corpo (um corpo quente, desmembrado) e os objectos isolam-se num fundo neutro, no qual marcam uma presença substancial, através de pesadas projecções de sombra. A escala dos objectos em relação ao formato não estipula uma distância única ou estável para o observador. Assim, os fragmentos de corpo são pequenos em comparação com os objectos. Tal mecanismo, intencional ou não, subtrai ao conjunto uma hipotética noção de um "todo", ao qual as partes ostensivamente pertencem, como peças de um puzzle.

 

Apesar de referência marcada à pintura tenebrista do séc. XVII (Caravaggio e os seus seguidores), o efeito global é o de um momento cinematográfico de acção interrompida. De facto, suspense, no seu sentido literal - algo deixado pendurado, suspenso - é o principal dispositivo pelo qual estas obras sustentam, paradoxalmente, no seu carácter fragmentado, um sentido de coerência narrativa.

 

Na sua qualidade, nas tonalidades lívidas da carne, no modo como os tecidos brancos evocam mortalhas e nos objectos abandonados - o copo, os sapatos, o auscultador de telefone - paira um perturbante sentido de morte, de acção interrompida. Enquanto os fragmentos de corpo remetem abertamente para uma iconografia cristomórfica, os objectos são alusões mais genéricas à tradição de memento mori. No conjunto, duas das obras têm uma presença muito intrigante, mas de algum modo deslocada: o caranguejo (disposto numa prespectiva desconcertante, visto de baixo), e a asa, nenhum deles mantendo com o corpo humano uma relação de afinidade, fora de contextos narrativos especifícos. São, em contrapartida, os objectos mais banais que emergem como mais ameaçadores e também mais sedutores.

 

 

Ruth Rosengarten in  "Visão"

© 2017 Teresa Dias Coelho