TERESA DIAS COELHO

Dores

João Pinharanda

 

 

O livro pode ser reduzido a um jogo de articulação de simetrias. Isto apenas reforça a ruína de sentimentos que o habitam. Apenas acentua a crueldade que o percorre. O fulcro de todo o livro é a morte; ou as dores que a ela nos conduzem e delas nos trazem.

 

O livro pode ser reduzido a um jogo de articulação de simetrias. Isto não reduz a sua amplitude nem reduz a sua profundidade - até porque as simetrias não são simples. Este jogo, apenas reforça os sentidos do caos de sentimentos, da ruína de sentimentos, que o habitam. Apenas acentua a crueldade que o percorre. Como se tudo neste existisse por via de um deliberado propósito: cada personagem, cada papel representado por cada personagem, cada história contada, surge construída em função de uma fria necessidade exterior: erguer um edifício, apresentar uma moral, justificar a "razzia" exercída sobre as coisas e as pessoas.

 

Dois seres humanos assassinados, duas doenças que conduzem a duas mortes, duas aves (uma delas metafórica, porque é um anjo), dois animais, dois animais mortos, dois seres fantásticos, duas crianças, dois pares de irmãos, dois cenários de possíveis roubos, dois narradores masculinos (se a um anjo se atribui sexo, pois até um dos protagonistas lhe chama "senhora"), dois milagres divergentes, e... dois autores. Uma enunciação que poderia depois passar para todos os campos e leitura do real: entre o branco e o escuro, entre o ruído e o silêncio, entre a pena e o pêlo, entre o sono e a insónia,...

 

O fulcro de todo o livro é a morte, ou as dores (nome próprio e substantivo comum) que a ela (ou dela) nos conduzem. Mas essa morte não é a representada; é uma morte sugerida, narrada, surgida "fora de campo". Djudja já matou o seu homem, a mãe de T. já morreu antes da história começar, o hamster é morto na ausência dos adultos, a ave rara de Dores morta na casa de banho numa cena que nos é dada através de uma reflexão sobre as consequências de uma morte afinal com pouco sangue; a morte do narrador (caso único de uma narração masculina) é diferida para um cenário de doença inexorável depois da noite com a dama da mata, a irmã drogada está morta já no ínicio da narração, Seresma mata a miúda negra mas é a sua própria morte (prevista no título) que importa, e essa é anunciada nos três vultos negros que espreitam a cena, o replandescente motociclista-anjo (porque é um narrador omnipresente) descreve o seu corpo depois de morto de exaustão de um estranho bailado de amor por um pobre e escuro pastorinho estropiado.

 

A intensa e densa trama de vidas de "Maina Mendes" ou "Lucialima" é aqui seccionada por vários protagonistas; a loucura que percorre os ambientes de "Casas Pardas" ou da "Missa in Albis" retém-se aqui em cada um dos sete cenários propostos; a exemplaridade poética das frases tomadas como pequenos lemas, curtas divisas em "Da Rosa Fixa" é aqui própria da matéria de ligação através da palavra.

 

Os cantos da alma dos personagens preenchem-se das dores de um total desamor pelos outros, por si mesmos; a escritora aplica-se a desmanchar cada um deles com a precisão analítica de quem também não os ama; ou com a amargura de quem entende não poder amar esta realidade. Talvez por isso o último conto adquira a dimensão do fantástico através da convocação de um anjo que realiza um contra-milagre, que realiza a felicidade do único ser da terra que parece não ter podido ir ver a Senhora na azinheira e o sol a rodar no céu de Fátima. É a imagem do sempre repetido exercício da esperança mas será que tal como para as crianças "a esperança [é já] culpa"?

 

A segunda autoria da obra é de Teresa Dias Coelho. Trata-se de pintura (de médio e grande formato) pensada como complemento ilustrativo do texto, embora em perfeita autonomia relativamente a ele. É dificil relacionar a qualidade ao mesmo desarticuladora de valores e encadeadora de tensões presente no texto e as imagens oferecidas. Justificando despropositadamente o preço da obra (ver ficha) não o justificam, afinal, porque a sua qualidade de representação é lamentável. O entendimento da relação (perfeita) entre dois volantes da obra só se faz perante as pinturas (felizmente ainda em exposição na Casa Museu Fernando Pessoa em Lisboa). Parece real, nesta pintura, a consciência de uma distância crítica em relação aos sentidos dos próprios recursos utlizados. Se assim for, ela é também eficaz reveladora de um novo contexto criativo na obra da pintora, capaz de não a prender ao virtuosismo que possui (como Maria Velho da Costa sobrevive à mestria com que maneja a escrita). São obras de perfeita realização académica, onde a fragmentação da figura e do objecto exercita de modo eficaz um sentimento de ausência, de desolação, de desespero existencial. Outro modo de dizer, como uma personagem destas histórias: "eu não penso"; ou "não existo"; ou sinto "o rancor do luto"...

 

 

João Pinharanda in  "Público"

© 2017 Teresa Dias Coelho