TERESA DIAS COELHO

Cenas Póstumas

António Guerreiro

 

 

Dores, é um livro com dupla autoria: os contos são de Maria Velho da Costa, as imagens reproduzem quadros de Teresa Dias Coelho. A ideia inicial era a de ilustrar o texto, mas as ilustrações transformaram-se em telas e o trabalho de pintura ganhou autonomia em relação ao texto. Autonomia não significa total ausência de relação motivada entre cada um dos discursos, que se verifica sobretudo na representação pictórica de elementos fúnebres e sinistros que o texto explora em larga escala. Mas os quadros não deixam por isso de seguir os seus próprios caminhos e de se desenvolverem no interior de um horizonte que está longe de ser imediatamente tributário de processos e códigos alheios.

 

Um par de sapatos, uma mão estendida em pose de abandono, uma faca, um copo, uma escada em perspectiva que os limites da tela interrompem, tanto na parte superior como na inferior: cada um dos quadros representa um único elemento (ou um par de elementos que formam uma unidade, como é o caso dos sapatos ou dos pés estendidos, num quadro, e suspensos, noutro). Estes objectos são coisas perdidas. Perdidas, não no sentido de abandonadas, mas no sentido em que estão em perda. Em perda de quê? Da vida, ou da ligação a ela. São, por isso, como natureza-mortas, mas não como aquelas em que o mistério da morte se dissipou e os objectos se oferecem como coisas mudas, desabitadas de significação e desprovidas de transcendência. Aqui, a morte conserva ainda todo o seu mistério porque os objectos foram ambiguamente imobilizados, fixados como signos de um ambiente mortuário e de uma realidade espectral. As cores sépias, os fundos em gradações de castanho esverdeado que se prolongam em reflexos pelos objectos representados introduzem sinais de indiferenciação, tornam os pés estendidos (para dar apenas um exemplo) prolongamentos de um fundo de onde jamais se conseguirão erguer. E o elemento humano contamina o não-humano: a faca, ou o auscultador do telefone pousado no chão são peças do mesmo universo que fazem parte os braços e as pernas em estado jazente. Há um estrutura narrativa indeclinável que vai ligando as peças umas às outras e construindo-lhes uma história.

 

Mas não é apenas nesta capacidade de evocação narrativa que podemos descobrir uma "matriz literária" (chamemos-lhe assim) para estes quadros: eles desenvolvem uma capacidade de produção retórica que tem a ver, sobretudo, com processos metonímicos. Os objectos são objectos parciais (com o que isso significa na linguagem psicanalítica), fragmentos de um todo que retira toda a sua força e ambiguidade de uma ausência bem visível. Sem a referência a esse todo, a essa ausência que se torna presente, o elemento sinistro e inquietante não se poderia insinuar. A magnificiência e a fragilidade do que já não é, e que por isso acentua a forma mais insuportável de efemeridade (aquela que a morte faz descobrir), resultam numa espécie de solenidade mortuária.

 

Assim sendo, a representação realista nada tem a ver, nestes quadros de Teresa Dias Coelho, com o levar às últimas consequências as potencialidades dos processos (técnico-representativos) da pintura. É no momento em que se acentua o realismo da representação que os limites de toda a representação se tornam evidentes e os elementos representados dão a ver a sua precariedade, o que neles não pode ser dito mas apenas significado. Eles são coisas mútuas que estendem o silêncio muito para além de si próprios.

 

Não é apenas por essa forte sugestão de silêncio que o sagrado emerge nestes quadros. É também por razões muito mais imanentes às próprias formas representadas. Os reenvios para a iconografia crística (os pés suspensos) e para algumas formas e elementos da arte sacra são evidentes. Importa, no entanto, verificar que essas referências iconográficas não se confundem com uma iconofilia mas com uma iconoclastia. Para passar de uma à outra bastou mudar de fetiche: por exemplo, passar do rosto aos pés, das partes superiores às inferiores.

 

 

António Guerreiro in Jornal "Expresso"

1994

© 2017 Teresa Dias Coelho