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TERESA DIAS COELHO

Cartografias do Tempo

Rui Afonso Santos

 

 

O tempo molda a pintura de Teresa Dias Coelho.

As circunstâncias particulares de uma infância perdida e de um olhar sobre a realidade tantas vezes desencantada geram esta pintura que, na sua essência, define uma cartografia de memórias e emoções.

Desde a iconografia da série "Dores" (1993), inicialmente nascida das ilustrações para um livro de Maria Velho da Costa, passando pelas paisagens de mar e céu a grafite de "Mesa do Mar" (1995) e, depois, pelas séries "Nuvens" (2000) e "Outras Nuvens" (2001), assiste-se na sua pintura a uma pseudo-narrativa ritualística que se socorre de aparentes extremos de figuração para, afinal, traduzir a indisível precaridade dos objectos.

Mas foi precisamente com a espectacular série dos "Objectos Comuns" (2000) que a precaridade das coisas e o jogo da memória melhor se traduziu. Objectos familiares mas de design anónimo dos Anos 50 e 60, de superfícies cromadas, esmaltadas e plastificadas, entre ferros de engomar de linhas aerodinâmicas, termos de piquenique de padronagens festivas ou View-Masters de formas futuristas, reclamavam uma dimensão temporal específica, fruto da vivência e da emoção, do evidente devir das coisas.

Os formatos, frequente e rigorosamente quadrangulares, são fragmentos dessa realidade íntima que ressurge a sépia nestas séries de minuciosas paisagens e arvoredos entrecortados de luz liquefeita para, logo em seguida, se coisificarem em tintas planas, ausentes de transparências, onde, desta vez, a cor volta a ressurgir.

Dir-se-ia que a extrema fragilidade destes fragmentos de paisagem (tornada perene pela própria pintura) se fragiliza e fragmenta ainda mais na série de tintas opacas que a complementa, como uma realidade desfeita em milhares de píxeis que são, evidentemente, também eles efémeros. A sépia é a primeira série, animada de cor a segunda, formalmente mais próxima de um mapa esta, no minucioso esboçar das folhas de árvores que parece desenhar ilhas e continentes.

De luz (ou antes de sombras?) se faz e desfaz esta pintura, de fragmentos frágeis e evasivos também, permanentemente fixados. Uma cartografia de emoções se define aqui, com uma surpreendente dimensão temporal sempre constante, na dialéctica entre a memória e o presente que são, afinal, o cerne da própria criação artística.

 

 

Rui Afonso Santos

2004

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