TERESA DIAS COELHO

O Jardim dos caminhos que se dividem - O Poder do centro

Manuel Gusmão

 

 

Pela janela múltipla larga, com uma pequena selva de quintal, a luz bate-lhe na têmpora esquerda e depois deita-se sobre a praia do estirador onde repousam pequenas rochas, livros, paus de grafite, fotografias e este caderno. No placard da parede em frente, vais dispondo o cinema habitual, suspendes, fotograma a fotograma, os mares manuscritos.

 

Há um princípio definido; uma linha divide nitidamente o mar e o céu. " 'Os dois abismos' tocam-se nessa linha? As duas 'bocas de sombra'?" - Não se trata disso. Isso era no velho Hugo. Aqui são dois planos oblíquos que se demarcam. As metamorfóses começam no plano de baixo. Aí é que as fronteiras se sobrepõem - mar, mesa, drapejamentos, terra, terra.

 

Estes mares podiam ser mapas da sombra que a terra deita.

 

Agora com a mão esquerda mexes nas ondas e depois projectas uma leve ondulação de sombra no tecto do mundo. Escureces. Recuas para ouvir a metamorfóse. Voltas. inclinas-te, curvas-te - e escureces o desenho. Deitas sombras sobre o mapa, tentando o negro. Chamando-o e mantendo-o à distância necessária para que ele próprio respire. vibre.

 

Do outro lado, por trás do mar e da parede em que ele se abre, há uma pequena sala em ruínas. Pintura que cai, madeira que apodreceu, metais ferrugentos, terras, teias, restos e lixo. Como se fosse o corríodo cavername de um mar. a terra que o sustenta. Dessa sala viria do velho o oceano a cavernosa tosse que não se ouve.

 

No placard do lado da janela, por onde agora a luz se dobra a entrar, fixas o mar à chuva: um jardim escuro e cintilante - pequenos maciços vegetais de prata antiga; ervas que são dobradas, remoinhos, pequenas crateras de água fervente álgida; flores negras. A pele eriçada do grande felino que não cabe no écran.

 

Olhas fixamente à procura do destino daquela dobra de lençol de água. Depois, com a mão direita apoias-te na parede, o corpo declina para o outro lado, com o braço, com a mão esquerda dobrando a onda. O drapejamento do mar: a mesa levantada do amor; os corpos ausentaram-se e ficam os panos que o silêncio ondula.

 

1980: seis desenhos: o mar como tampo de mesa; a mesa do mar levemente encrespado; a gaveta que se abre e trás um pequeno mar confinado. leves imprecações espumejantes. gráficas nuvens e bandos de pássaros ou tão só um, disparado da direita para a esquerda. O traço é diferente, mais riscado, agudo e grosso. com mais branco.

 

E eis que recomeça: a mesa rochosa no centro do mar. A mesa da luz. Há mais noite no mar que no céu e a luz da ilha está ali como o gume do canto fatal que atrai, estoira e dispersa o metal dos barcos e os destinos da navegação. "Está ali" - é o que podemos dizer. Depois contamos histórias entre a nostalgia e o elogio, o pânico e a esperança.

 

Glosa, variação. A insistente retomada do tema. A miniatura do interminável. Então tu ouves "Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..."

 

E é como se, sobre, saltasse "o dorso luzente e excepcional de um peixe". "Um parafuso cai nas lajes, às escuras" deste mar: um espasmo frio por entre as raízes dos cabelos irisa as árvores do cérebro.

 

Um pequeno acidente terrestre-vascular. Agora, sempre que as vozes irrompem no ouvido dessa música, vês o plano de mar (como no filme). súbita espantação de alegria.

 

Vais fazendo mares na mesa vertical. contra a parede. Aqui, não se escreve da para a direita e de cima para baixo.

 

O que podes desejar?

 

Talvez que sejam os mares que nenhuma praia contém. E entretanto o finito: o finito imenso de cada vez. golpe sobre golpe. plano sobre plano.

 

 

Manuel Gusmão

1995

© 2017 Teresa Dias Coelho