TERESA DIAS COELHO

A Alegoria das Mãos

António Guerreiro

 

 

As mãos que pintaram estas mãos responderam às determinações da “maneira”, seguiram a verdade etimológica que nos diz que manuarius deriva de manus. Trata-se, pois, de um literal maneirismo, em que a representação das mãos tem características do artifício maneirista. São mãos de criança, de adulto, de velho, de mulher, de homem. Mas não é essa variedade, um catálogo de diferenças “fisionómicas”, que a expressão mímico-gestual da série comunica em primeiro lugar. O que atrai imediatamente a nossa atenção é o facto de serem mãos vazias, sem uma intenção, subtraídas ao reflexo de manipular, de fazer, de significar e de simbolizar. Em suma: são mãos que não têm nada a fazer nem para fazer. E por isso é que parecem próteses, apêndices desajeitados que os seus detentores quereriam talvez esconder porque posam (no início de cada um destes quadros está visivelmente uma fotografia) sem saber onde pôr as mãos, experiência pelas qual já todos passámos. Esse é um saber – resultado de um treino - que os modelos fotográficos e os apresentadores de televisão têm de adquirir necessariamente. Em situação de inactividade e exposto ao olhar de outrem, esse instrumento humano tão perfeito perde toda a naturalidade e passa a ser articulado como quem fala uma língua estrangeira que domina mal. Como o falante estrangeiro, o dono das mãos deixa de ter controlo sobre os seus actos motores manuais e diz coisas que não queria dizer, denuncia-se, é atraiçoado por elas. Nesse momento, dá-se uma dissociação entre essa parte do corpo (a sua extremidade mais avançada) e o intelecto. Teresa Dias Coelho pintou uma série desses gestos em que o lado involuntário e de perda de domínio acabam sempre por triunfar. E aí as mãos deixam de ser uma metonímia do corpo para se tornarem uma espécie de alegoria da vida do espírito. Não uma vida em acção, mas uma vida imobilizada e cristalizada. Por isso é que temos a impressão de que estes quadros contam uma história muito mais complexa do que aquela que nos é dada através de uma simples análise dos gestos.

 

E é justo falar em alegoria porque há aqui, como na alegoria barroca, o desmembramento de uma totalidade orgânica. O que resta são fragmentos, ruínas de um corpo que se apresenta como um objecto truncado e reificado, isto é, tornado coisa. Estas mãos são como torsos. E os quadros são exercícios de mortificação. Não há neles nenhuma vida, tudo é imobilidade, e a palidez cinzenta e sem brilho das pinturas aí está para disseminar a cor da morte. As mãos, sistematicamente, nada fazem e, muitas vezes, o que queriam mesmo era anular-se, esconder-se, desfazer-se. E tudo o que comunicam é involuntário: não há gestos indicativos (que visam orientar e guiar uma acção), não há gestos pantomímicos (que imitam ou reproduzem coisas e ideias), não há gestos enfáticos e retóricos (que sublinham ou acompanham o discurso oral), não há gestos simbólicos (sinais rituais e codificados, identificáveis como pertencendo a um dado grupo ou comportamento). Há, isso sim, uma expressividade imóvel e silenciosa, próxima daquilo a que podemos chamar sinistro ou inquietante (no sentido do Unheimliche, de Freud, aquilo que é tanto mais inquietante quanto é familiar). A série cria o efeito de uma história de fantasmas.

 

A quem pertencem estas mãos? Isso não interessa, elas não são atribuíveis a um rosto, a alguém com uma identidade. Identidade, são elas que a têm. Identidade e diferença, umas em relação às outras. É como se tivessem adquirido uma vida própria. Ou melhor, uma morte própria.  E trazem consigo este paradoxo: sendo completamente ociosas, melhor seria dizermos “inoperosas”, sem obra, elas são o resultado de um fazer artístico, de uma operação concreta que requer a cooperação do virtuosismo técnico mais elevado com o quid indefinível do artístico. Estas mãos inábeis, inactivas e redundantes são a obra – de pintura - de mãos de artista, isto é, de mãos “operosas”, não désoeuvrées, activas e comandadas por altos desígnios da cosa mentale. As mãos representadas são mãos humanas, demasiado humanos, como é bem visível. Os animais não passam, em nenhum momento, por esta “desnaturalização” inibitória dos seus membros. A mão humana é o órgão de uma potência. Imobilizada no seu estado de potência, sem nada para fazer, torna-se redundante e auto-referencial, designa-se a si própria. São assim as mãos que vemos nestes quadros: intransitivas, apontando indiscretamente para si, formando uma gramática de gestos que se queriam furtar à significação e à expressão. Não há, em toda a série, mãos neutras e inexpressivas. Isso seria uma impossibilidade.

 

 

António Guerreiro

2016

© 2017 Teresa Dias Coelho